Investigação da Folha identifica contratos milionários de uma mesma empresa com o município. Canalização da Avenida Brasil está suspensa, enquanto Prefeitura e Câmara são cobradas a esclarecer a aplicação do dinheiro público. Por Eduardo Denecken — FSI. Uma obra interrompida, contratos que somam quase R$ 10 milhões e perguntas que ainda aguardam respostas. Esse é o cenário encontrado pelo departamento de jornalismo da Folha de Santa Isabel durante um levantamento sobre contratações públicas, execução de obras e transparência administrativa em Santa Isabel. A investigação identificou contratos da empresa Ramon Aguilera Participações e Empreendimentos Ltda., CNPJ n° 11.823.795/0001-54, relacionados a diferentes empreendimentos municipais, entre eles a canalização do Córrego da Avenida Brasil, cuja paralisação foi formalizada no Diário Oficial. AVENIDA BRASIL: OBRA PARADA ATÉ DEZEMBRO Conforme aviso publicado no Diário Oficial de Santa Isabel, edição n° 2.618, de 9 de outubro de 2026, os trabalhos de canalização do Córrego da Avenida Brasil, entre a Rua José Bueno e a Rua Vereador Sebastião Claudiano, permanecerão suspensos até 7 de dezembro. O documento informa que a paralisação começou em 31 de julho. Embora datado de 31 de agosto, o aviso somente foi publicado em outubro. A Prefeitura justifica a interrupção pela necessidade de estudos técnicos complementares para reavaliar a vazão hidráulica do córrego e a conexão da nova canalização com a estrutura existente, nas proximidades da Rua Imperatriz. Segundo a administração, a continuidade dos trabalhos sem essa revisão poderia comprometer o escoamento das águas e provocar problemas estruturais. A justificativa técnica precisa ser considerada. Entretanto, algumas perguntas permanecem: os estudos originais foram suficientes? Quando o problema foi identificado? Haverá custos adicionais? Qual será o impacto no cronograma? E a principal questão: a paralisação decorre exclusivamente de problemas técnicos ou existem dificuldades financeiras relacionadas à execução do contrato? Até o momento, não há documentação que comprove falta de recursos como causa da suspensão. Cabe à Prefeitura esclarecer a situação. TRÊS CONTRATOS SOMAM R$ 9,7 MILHÕES O levantamento do departamento de jornalismo identificou três contratos atribuídos à mesma empresa: canalização do Córrego da Avenida Brasil: R$ 3.470.144,63; Complexo Esportivo no Varadouro: R$ 4.675.335,67; construção de uma UBS no bairro Cafundó: R$ 1.584.387,71. TOTAL IDENTIFICADO: R$ 9.729.868,01. Os valores foram localizados em uma base independente de informações sobre contratações públicas, disponível no perfil da empresa no AiLicita. Os montantes correspondem aos valores contratuais identificados, não aos pagamentos comprovadamente realizados. Ainda é necessário verificar quanto foi pago, quais serviços foram executados, se houve aditivos e se existem valores pendentes. São empreendimentos de áreas distintas, envolvendo infraestrutura, esporte e saúde. Todos exigem planejamento, acompanhamento dos contratos e transparência na aplicação dos recursos públicos. CÂMARA MUNICIPAL: FISCALIZAR NÃO É APENAS REQUERER O levantamento também identificou iniciativas anteriores de fiscalização parlamentar. Em março de 2024, o vereador Chico do Mercado solicitou cópia do contrato da empresa Ramon Aguilera referente às calçadas acessíveis no trecho 2 da Avenida República. O requerimento foi aprovado por unanimidade, conforme notícia publicada pela Câmara Municipal. Em 2026, o vereador Márcio Pinho solicitou documentos relacionados a contratos de serviços terceirizados e propôs a criação de um conselho municipal para fiscalizar e acompanhar esses serviços. Essas iniciativas demonstram que a fiscalização contratual já foi objeto de atuação parlamentar, mas não comprovam irregularidades nos contratos citados nesta reportagem. Agora, diante da paralisação da Avenida Brasil, a cobrança precisa avançar. O presidente da Câmara e os vereadores devem esclarecer se solicitarão os contratos completos, as medições, os comprovantes de pagamento e os relatórios de fiscalização. Fiscalizar não é apenas apresentar requerimentos: é acompanhar as respostas, verificar documentos e cobrar providências. O PREFEITO ESTÁ DANDO UM PASSO MAIOR QUE A PERNA? O prefeito Carlos Chinchilla, como chefe do Executivo, responde pela condução geral da administração municipal e pelo planejamento das prioridades, respeitadas as atribuições dos setores técnicos e dos demais agentes públicos. A construção de equipamentos esportivos, unidades de saúde e obras de infraestrutura pode representar investimentos importantes. Entretanto, contratar e iniciar obras não é suficiente: é preciso executá-las, concluí-las e prestar contas. Cabe aqui uma ironia que o contribuinte certamente compreenderá: na administração pública, dar um passo maior que a perna não significa apenas correr o risco de tropeçar. Significa que, quando a conta chega, quem pode acabar esperando pela solução é a população. Se existem problemas técnicos, que sejam explicados. Se há falhas de planejamento, que sejam corrigidas. Se existem pagamentos pendentes, que sejam informados. E, se os contratos estão sendo executados normalmente, que a Prefeitura apresente os documentos comprobatórios. O que não pode acontecer é a população ficar sem respostas enquanto obras permanecem interrompidas. A INVESTIGAÇÃO CONTINUA A Folha de Santa Isabel realizou este levantamento com base em publicações oficiais, registros públicos de contratações e informações disponíveis para consulta. A investigação identificou contratos que somam R$ 9,7 milhões, mas ainda não confirmou o total pago à empresa, a existência de débitos vencidos ou uma eventual relação entre dificuldades financeiras e a suspensão da canalização. A Prefeitura deve esclarecer os motivos da interrupção, a previsão de retomada, os custos atualizados e a situação financeira dos contratos. A Câmara, por sua vez, precisa demonstrar como acompanhará o caso. O dinheiro público exige transparência, as obras exigem planejamento e a população merece respostas. Quando uma obra para, não basta publicar uma data no Diário Oficial: é preciso explicar por que parou, quanto isso custa e quando será entregue. A Folha de Santa Isabel continuará acompanhando o caso.